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“Portugal recicla cerca de 42% dos resíduos plásticos de embalagem”

Entrevista com Ignacio Marco, Diretor Geral da PlasticsEurope Ibéria

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Durante a última edição da Identiplast, que decorreu nos dias 7 e 8 de março, em Londres, tivemos a oportunidade de entrevistar Ignacio Marco, diretor geral da PlasticsEurope Iberia, anfitrião do congresso. Neste fórum internacional, ficámos a conhecer os sistemas de reciclagem de plásticos de vários países europeus, bem como as tendências deste setor no que diz respeito à reciclagem e valorização do material.

A PlasticsEurope apresentou recentemente o compromisso 'Plastics 2030'. Em termos gerais, como é que o plástico vai contribuir para uma economia circular?

A PlasticsEurope lançou o Compromisso Voluntário 'Plastics 2030' no mesmo dia em que a Comissão Europeia apresentou a Estratégia dos Plásticos numa Economia Circular. Trata-se de uma série de medidas e tem dois objetivos fundamentais. O primeiro, garantir que, até 2030, 60% das embalagens de plástico na Europa (UE-28, Noruega e Suíça) sejam recicladas ou reutilizadas e, segundo, que até 2040, 100% de todas as embalagens sejam recicladas, reutilizadas ou recuperadas.

O Compromisso também inclui o programa Operation Clean Sweep, que pressupõe que os fabricantes de matérias-primas tomem medidas nas suas fábricas para garantir que nenhum grão de matéria-prima chegue ao ambiente. Além disso, estamos a ampliar o nosso estudo anual para incluir a análise do ciclo de vida dos plásticos. O Compromisso também prevê medidas de educação dos cidadãos neste tema.

Ignacio Marco, diretor da PlasticsEurope Ibéria, no congresso Identiplast 2019
Ignacio Marco, diretor da PlasticsEurope Ibéria, no congresso Identiplast 2019.

Tudo isto para fomentar a economia circular?

Sim, os plásticos contribuem para a economia circular em todas as fases da vida do produto. Em primeiro lugar, porque é possível reduzir o material a ser utilizado. Depois, porque com um bom ecodesign podemos desenhar e fabricar produtos que sejam, ao longo da sua vida útil, utilizados, reutilizados, reparados, reciclados e até recuperados ou valorizados energeticamente, quando não houver outra opção. O plástico tem um poder calorífico duas vezes superior ao do carvão e é muito semelhante ao do gás natural. Assim, uma vez utilizado, reutilizado, reparado, reciclado, ainda pode ser recuperado energeticamente.

A PlasticsEurope estabeleceu o objetivo '2020 - zero plásticos em aterros sanitários'. Foi demasiado ambicioso?

Um dos objetivos da PlasticsEurope, como o nosso slogan indica, é “Zero plásticos em aterro”. Dizemo-lo por várias razões: em primeiro lugar, porque colocar plásticos em aterro é o mesmo que deitar dinheiro fora, pois é um material que pode ser recuperado e rentabilizado. Além disso, porque quando o plástico acaba num aterro, é muito provável que vá parar ao ambiente.

Era um objetivo que não podíamos alcançar sozinhos. Há países na Europa, como a Suécia, a Dinamarca, a Alemanha ou a Inglaterra, onde foram tomadas medidas para evitar que os plásticos sejam depositados em aterros.

Que medidas anti-aterro foram implementadas nesses países?

Basicamente, tornando o custo da deposição de um plástico em aterro superior ao da sua reutilização, reciclagem ou recuperação energética. Na Península Ibérica, há muito que insistimos em que a deposição em aterro é demasiado simples e barata. Para dar uma ideia, o custo de levar uma tonelada de plástico para o aterro é equivalente a um menu de almoço num restaurante, enquanto noutros países é superior a cem euros. Pensamos que é necessário tomar medidas.

Outra medida aplicada por esses países foi proibir a deposição em aterro de quaisquer resíduos recicláveis ou valorizáveis, como os plásticos.

No que diz respeito aos materiais, acha que os bioplásticos são uma solução real?

A terminologia gera confusão entre a origem do material e o seu fim de vida. Quando falamos de um bioplástico estamos a referir-nos à sua origem, por exemplo, quando ele é feito de cana-de-açúcar. Mas, se a partir desse material é criado um polietileno exatamente igual ao obtido a partir do petróleo, então esse produto não é biodegradável.

Os plásticos de origem bio são uma opção, mas, para além da origem, temos de pensar no seu fim. Neste sentido, existem aplicações muito claras, por exemplo, o saco de lixo biodegradável e compostável de base biológica onde a matéria orgânica é depositada. Assim, tanto o saco como o seu conteúdo podem ser tratados e compostados em conjunto.

O diretor da PlasticsEurope Ibéria no salão de congressos Queen Elisabeth, em Londres
O diretor da PlasticsEurope Ibéria no salão de congressos Queen Elisabeth, em Londres.

E quanto aos plásticos biocompostáveis?

Os plásticos biodegradáveis compostáveis são aqueles que são depositados em estações de compostagem e podem acabar como fertilizantes ou produtos para o solo. Podem provir de fontes renováveis ou biológicas (como o ácido poliláctico) ou de fontes fósseis, como o petróleo. Neste caso, seria um plástico convencional biodegradável compostável.

O importante é saber que, neste caso, o cidadão deve depositar estes recipientes biodegradáveis compostáveis no recipiente de matéria orgânica e não no amarelo, uma vez que o tratamento destes resíduos é muito diferente.

A medida que prevê o uso de pelo menos 50% de bioplásticos em determinados produtos de utilização única está errada?

Na minha opinião, misturar material biodegradável com material que não é biodegradável não oferece uma solução completa, porque parte dele permanecerá como resíduo. Temos de compreender que o plástico convencional é reciclado mecanicamente e o plástico biodegradável é compostado biologicamente, então se uma embalagem é composta por 50% de cada tipo de plástico, como é que gerimos esse resíduo?

O ideal é que os produtos sejam feitos a partir de um só material, seja ele qual for. A propósito, fala-se muito do uso de material reciclado em embalagens, mas ele pode ser utilizado em vários setores, como o da construção civil ou do automóvel, entre muitos outros.

Em que situação se encontra Portugal em termos de sistemas de recolha e reciclagem?

Em Portugal, em 2016, de todos os resíduos plásticos recolhidos através dos sistemas oficiais de recolha de resíduos, cerca de um terço foi enviado para processos de reciclagem, cerca de 30% para processos de valorização energética e o restante foi enviado para aterro.

O facto de, em Portugal, não existirem limitações ou uma lei que impeça o depósito em aterro de resíduos recicláveis ou valorizáveis (como os plásticos, por exemplo) significa que os volumes de resíduos plásticos enviados para aterro continuam a ser significativos. Sabemos que nos países onde estas limitações existem, as taxas de reciclagem geralmente aumentam.

Quanto aos resíduos plásticos de embalagens, Portugal apresenta uma taxa de reciclagem de cerca de 42%, o que coloca o país acima da média europeia de 40,8%.

Além da imposição de limites e do aumento das taxas, o que pode ser feito para diminuir o plástico em aterro?

Aumentar a reciclagem mecânica e utilizar mais a recuperação energética. Além disso, estão atualmente a ser criadas na Europa instalações-piloto de reciclagem química. Estas convertem o plástico em moléculas originais, permitindo que volte a ser usado como se fosse material virgem. Além disso, como já referimos, existe a reciclagem orgânica, ou seja, a compostagem.

Durante a conferência falou-se de ecodesign…

O plástico é o exemplo perfeito da economia circular porque pode ser usado e reutilizado. O ecodesign tem muito a dizer quando se trata de desenvolver produtos que façam a melhor utilização possível dos recursos e que sejam também concebidos para facilitar a sua posterior reutilização e reciclagem.

Assumiu a direção da PlasticsEurope Iberia em 2017. Como vê a atual campanha de desacreditação do plástico?

Juntei-me oficialmente à PlasticsEurope em janeiro de 2017. Alguns meses mais tarde, perguntei à nossa equipa, que está no setor há muito tempo, se a quantidade de notícias relacionadas com o plástico era normal, muitas delas desproporcionadas porque não se baseavam em argumentos racionais ou dados comprovados. Eles confirmaram que é algo recente, que se acentuou nos últimos anos e que acontece porque, de facto, há um problema e nós somos os primeiros a reconhecê-lo: há muitos resíduos plásticos no ambiente.

Temos de fazer parte da solução, mas a indústria, as autoridades, as ONG e os cidadãos de todo o mundo, têm de remar na mesma direção.

Parte da equipa da PlasticsEurope...
Parte da equipa da PlasticsEurope: Beatriz Munier, diretora de comunicação de PlastisEurope na Península Ibérica e Irene Mora, diretora de sustentabilidade e ambiente da PlasticsEurope Espanha, Ana Rivas, especialista em inovação da Ecoembes e Richard McKinlay, ‘working package leader’ do projeto ‘H2020 PlastiCircle’ e responsável pela área de Economia Circular na Axion, em frente ao roll up do projeto conjunto, ‘PlastiCircle’, cujo objetivo é tirar o máximo partido do valor da embalagem.

Qual balanço faz desta edição do congresso?

É a edição de maior sucesso em termos de assistência, o que demonstra que existe uma preocupação geral e uma vontade de encontrar soluções. Estiveram no evento produtores, transformadores e recicladores de plásticos, juntamente com decisores políticos, autoridades públicas e organismos de gestão de resíduos, bem como figuras-chave de instituições académicas, institutos de investigação e ONGs. Todos os ‘players’ que têm algo a dizer sobre o assunto estiveram aqui, com o objetivo de acelerar a implementação de novas soluções para a circularidade dos plásticos. E, como foi dito em mais de uma ocasião durante o congresso, devemos todos trabalhar juntos.

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