O novo Roteiro para a Descarbonização da Indústria dos Plásticos (RDIP) visa apoiar os vários intervenientes da cadeia de valor a transitarem para uma produção livre de gases com efeito de estufa (GEE) e, desta forma, contribuir para uma economia mais sustentável. “É importante que todos nós, enquanto elos da cadeia de valor dos produtos e dos materiais, possamos todos juntos, de uma forma efetiva e com empenho, caminhar naquilo que são as soluções para uma verdadeira neutralidade carbónica”, começou por referir Nuno Aguiar, diretor técnico da APIP, aquando da apresentação deste roteiro, no passado dia 2 de outubro, na Nova SBE, em Carcavelos.
Desta forma, o roteiro pretende dar cumprimento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, sobretudo ao ODS 13 relativo ao combate às alterações climáticas. “É para isso que aqui estamos, para desenvolver um roteiro que seja, de facto, uma referência, não só a nível nacional, mas, acima de tudo, uma referência a nível europeu e que possa servir igualmente de referência a outros setores”, acrescentou Nuno Aguiar.
O RDIP partiu de uma iniciativa da APIP e está a ser realizado em parceria com a EY Parthenon. Nos próximos dois anos, vai promover uma série de ações e forma a minimizar as emissões no setor dos plásticos.
O roteiro terá um Conselho Consultivo composto por um Comité Estratégico e um Comité Científico, liderados, respetivamente, por Jorge Cristino, especialista em sustentabilidade e alterações climáticas, e Marta Moreira Marques, investigadora na área comportamental. “Queremos que seja um roteiro que nasce de fora para dentro do setor e não o contrário. Por isso, estão a ser convidadas diversas personalidades com reconhecidas experiência e capacidades técnicas para que possam participar no desenho daquilo que nós queremos que seja uma iniciativa cheia de sucesso”, assinalou Nuno Aguiar.
Para alavancar a descarbonização da indústria dos plásticos e promover uma mudança de paradigma na utilização dos recursos, será necessário capacitar as empresas do setor nesta temática, concretizando, por esta via, as medidas do PNEC 2030 e contribuindo para acelerar a transição para uma economia neutra em carbono.
E tal só será possível atuando em quatro eixos de descarbonização, nomeadamente, na gestão da procura; na eficiência energética; na descarbonização do processo produtivo; e na descarbonização de matérias-primas. É a partir desta premissa que a APIP, em colaboração com parceiros técnicos, visa implementar um plano de trabalhos agregador.
Presente na apresentação, a secretária de Estado da Energia e Clima, Ana Gouveia, frisou “o papel da indústria absolutamente essencial”, que demonstra “o potencial que a vontade das associações do setor, das empresas e dos centros científicos e tecnológicos do nosso país têm para concretizar esta mudança”. Referindo que 40% do investimento do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR) está alocado a projetos para promover a transição climática, a secretária de Estado destaca o papel das agendas verdes como “um movimento imparável” que junta centros de inovação, centros tecnológicos, grandes empresas, PME e sociedade civil num grade objetivo. Relativamente à descarbonização da indústria dos plásticos, Ana Gouveia caracterizou-a como “um desafio enorme”, pois “quando falamos de descarbonização de uma indústria, falamos da descarbonização de diferentes etapas daquilo que é o processo produtivo. Falamos da descarbonização das matérias-primas, da descarbonização das fontes de energia, do processo produtivo propriamente dito, falamos da descarbonização da logística do transporte e depois das questões de fim de vida e de circularidade”. Assim sendo, uma abordagem integrada e colaborativa explanada neste novo roteiro é, para Ana Gouveia, “um exemplo de uma melhor prática”. “Este roteiro de descarbonização demonstra precisamente a capacidade de mobilização que a indústria tem quando o Estado também assegura mecanismos de planeamento e de financiamento adequados. Portanto, é certamente um trabalho conjunto, mas cada um de nós tem um papel a desempenhar”, acrescentou.
Anabela Vaz Ribeiro, diretora executiva da United Nations Global Compact Portugal, reforçou que as pessoas não vão deixar de satisfazer as suas necessidades, pelo que “há aqui um conjunto de comportamentos e de coisas que têm que acontecer para que nós consigamos, de facto, alcançar os objetivos a que nos propomos”. Mas, neste cenário, frisou que as empresas estão cada vez mais preocupadas com a sustentabilidade e que há oportunidades à espreita: “Nós conseguimos identificar neste processo de transformação um conjunto de oportunidades novas de trabalho, de emprego, de investigação, de fazer novas patentes, de estabelecer novas parcerias, de olhar para o mercado e satisfazer as necessidades de maneira diferente”. Para além disso, salientou que a mudança tem de ser feita porque existem também pressões regulatórias e pressões da cadeia de valor, caso a empresa não queira ser excluída do mercado que exige abordagens mais responsáveis.
O desenvolvimento do roteiro setorial, que pressupõe um forte envolvimento e participação das empresas do setor e de outros atores do sistema de inovação nacional, envolverá a realização de vários workshops e webinars temáticos e o desenvolvimento de ferramentas digitais de apoio às empresas na sua jornada de transição, como uma ferramenta de autodiagnostico que permitirá às empresas situarem-se nesta jornada de transição.
Entre os resultados do roteiro estão a definição de cenários de evolução futuras e as trajetórias de descarbonização mais custo-eficazes a levar a cabo pelo tecido empresarial português, com a respetiva identificação das soluções tecnológicas com maior potencial, bem como a produção de guias práticos, qualificadores e orientadores, das PME.
Na apresentação do roteiro, Hermano Rodrigues, principal EY Parthenon, salientou como o crescimento da população está a pressionar para se encontrarem soluções mais sustentáveis para a produção e o fim de vida dos plásticos, uma vez que o crescimento do consumo levará a que a produção de plásticos cresça mais rapidamente do que o consumo global de materiais. Nomeadamente, o crescimento do consumo de materiais passará de 79Gt, em 2011, para 167Gt, em 2060.
Dado o crescimento esperado na produção de plásticos (800Mt de plástico) até 2050, é previsto também um aumento potencial de emissões de CO2eq que pode chegar a 2Gt por ano. “Temos aqui desafios muito significativos em matéria de produção, e até produção a montante dos produtos plásticos, mas temos desafios muito grandes depois do lado da procura, muito associados ao uso durante a vida útil e, em particular, ao seu fim de vida. Portanto, precisamos de mudar comportamentos nas empresas, mas precisamos muito de mudar comportamentos nas pessoas”, salientou.
Para a execução da descarbonização, Hermano Rodrigues salientou o esforço necessário em termos de inovação nos processos produtivos e nos produtos “porque, de facto, se mantivermos as práticas atuais, o resultado que vamos ter é um aumento absolutamente brutal nas emissões, que decorre muito do aumento da procura e também do aumento das emissões no fim de vida dos produtos”.
Segundo Hermano Rodrigues, são várias as estratégias de descarbonização que se podem pôr em prática, sendo possível, por exemplo, reduzir as emissões de carbono associadas ao setor dos plásticos em 56%, até 2050, se forem aplicadas práticas de economia circular.
A elaboração do roteiro nacional permitirá enquadrar, determinar e planear as estratégias e respetivos eixos de ação da indústria dos plásticos. O roteiro pretende induzir mudanças de paradigma na utilização dos recursos e na produção, sobretudo a partir da capacitação do setor empresarial de forma direta, mas também nos atores mais relevantes na cadeia de valor. Pretende também induzir sinergias com setores relacionados, sejam eles fornecedores ou clientes. Em terceiro lugar, visa estimular o diálogo com decisores políticos e autoridades nacionais, uma vez que uma parte importante do sucesso depende também de políticas públicas. E, por último, fazer uma discussão mais aberta, numa base bastante alargada, com os principais stakeholders.
Em termos cronológicos, o roteiro está dividido em quatro fases, nomeadamente uma inicial de diagnóstico que se baseia numa interação intensa para recolha de informação, uma segunda de definição de modelos associados, uma terceira que visa definir cenários prováveis em termos de evolução até 2050 e, por último, a mobilização dos atores para o cenário mais desejável.
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