Lisboa foi, a 6 de outubro, o epicentro da discussão mundial sobre o futuro dos plásticos. O Plastics Summit – Global Event 2025 (PSGE), organizado pela Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos (APIP), em parceria com associações congéneres de Espanha, Brasil e México, assumiu-se como um espaço de debate internacional sobre sustentabilidade, inovação e transição ecológica.
Com o alto patrocínio da Presidência da República e o apoio de várias entidades institucionais, a conferência evidenciou o papel de Portugal na liderança da transformação global do setor.
Logo na sessão de abertura, o comunicador Filipe Domingues, apresentador do evento, transmitiu a dimensão do encontro: 1.500 participantes, 61 patrocinadores, 120 parceiros e tradução em seis línguas.
Filipe Domingues ressaltou que vivemos “um momento decisivo para acelerar a inovação e a colaboração”, recordando que o evento foi neutro em carbono, com as emissões compensadas após avaliação da pegada ambiental.
Seguiu-se a intervenção de Amaro Reis, presidente da APIP, que enfatizou a ambição de fazer deste evento “não apenas mais uma conferência, mas a conferência”. Realçou a participação de toda a cadeia de valor — empresas, universidades, decisores políticos e sociedade civil — e anunciou um marco histórico: a criação da World Union of Plastics Associations (WUPA), uma organização internacional destinada a “comunicar informação baseada em ciência, reconstruir a confiança pública e elevar o debate global com racionalidade, integridade e responsabilidade”.
A abertura do PSGE incluiu ainda a intervenção do explorador espanhol Nacho Dean, que compartilhou a sua experiência de expedições pelos cinco continentes para sensibilizar para as alterações climáticas e a poluição marinha. Apresentou dados preocupantes do projeto Blue Spain e da sua réplica em Portugal: “quase 100% das amostras de água recolhidas continham microplásticos, sobretudo polietileno e polipropileno”. Ainda assim, deixou uma mensagem otimista: “atrás de cada problema há uma oportunidade, e agora temos a oportunidade de trabalhar juntos por oceanos saudáveis e livres de plásticos”.
Para concluir o momento introdutório, Armindo Monteiro, presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), salientou que “não se trata de acabar com o plástico, mas de lhe dar um ciclo de vida mais responsável”. Defendeu uma transição justa, baseada em investimento, inovação e simplificação administrativa, lembrando que “Portugal está preparado para liderar uma mudança de paradigma nos plásticos”.
O primeiro painel, moderado por Natalia Ortega, editora-chefe da Plastics Technology Mexico, abordou a ‘Indústria Resiliente e Gestão Integrada’.
Cristina Antunes, do Banco Santander Portugal, realçou o papel das finanças sustentáveis: “resiliência é compreender, medir e gerir a mudança”, defendendo que dados ESG (ambientais, sociais e de governança) credíveis são essenciais para atrair investimento. Duarte Cordeiro, ex-ministro do Ambiente e atual consultor, ressaltou a importância de políticas estáveis e previsíveis, lembrando que “a previsibilidade é competitividade” e que os impostos ambientais só são eficazes quando reinvestidos em inovação.
Jerusalem Hernández Velasco, da KPMG Espanha, observou que a sustentabilidade deve ser encarada como “uma oportunidade estratégica e não apenas uma obrigação de compliance”, enquanto a eurodeputada Lídia Pereira observou que “ambição e flexibilidade não são opostos” e que as políticas climáticas devem apoiar a competitividade industrial.
Da perspetiva da reciclagem, Margaux Barès, da Veolia, defendeu que a economia circular pode dar às empresas “vantagem competitiva ao garantir matéria-prima local e estável”, embora o preço do reciclado ainda precise de se dissociar do preço do plástico virgem.
Outros oradores valorizaram o papel da ciência, da cooperação global e da inclusão. Maria Cortés Puch, da Sustainable Development Solutions Network (SDSN), assinalou a importância do conhecimento na liderança sustentável, e Miriam Olivi, da Women in Plastics Italy, ressaltou que “resiliência é, antes de mais, sobre pessoas”, apontando a diversidade e a inclusão como motores de inovação. Já Perc Pineda, economista da associação norte-americana Plastics, alertou para riscos globais ligados ao comércio e à energia, mas também para oportunidades na automação e na proximidade das cadeias de abastecimento.
Entre visões de diferentes geografias e setores, do primeiro painel emergiu uma mensagem clara: a resiliência da indústria dependerá da convergência entre políticas estáveis, investimento em inovação, colaboração ao longo da cadeia de valor e uma integração efetiva da sustentabilidade como eixo estratégico.
O segundo painel, moderado por Assunta Camilo, diretora do Instituto de Embalagens e da Futurepack, alargou o debate à dimensão social da transição, reunindo vozes da indústria, do direito, da saúde pública, da comunicação e da gestão de resíduos, todas centradas na mesma questão: como transformar consumidores e cidadãos em verdadeiros agentes de mudança. Filipe de Botton, presidente da Logoplaste, criticou a burocracia europeia que considera um entrave ao investimento, comparando os prazos excessivos para abrir fábricas na Europa com os Estados Unidos. Apelou a regras mais simples e a um verdadeiro mercado único europeu.
De uma perspetiva asiática, Jianjun Li, vice-presidente da Kingfa Environmental Technology e diretor do Comité de Reciclagem da China Plastics Processing Industry Association (CPPIA), salientou o papel da rastreabilidade por blockchain e dos incentivos económicos na construção de confiança entre sociedade e indústria, promovendo a transformação dos consumidores de espetadores em protagonistas. O diretor-geral da Associação Portuguesa dos Industriais de Componentes para Calçado (APICCAPS), João Maia, enfatizou a necessidade de base científica: “Falamos de produtos biológicos, reciclados, éticos, mas não sabemos o que é melhor para o ambiente. Sem ciência, acabamos em religiões de consumo.” Também subtilizou a importância da rastreabilidade para calcular a pegada ambiental dos produtos.
Na vertente jurídica, José Eduardo Martins, sócio da Abreu Advogados, observou que “a transição faz-se com confiança, transparência e responsabilidade partilhada entre governos, indústria e cidadãos”, sendo a lei um instrumento de capacitação. A jornalista Neivia Justa, líder em causas corporativas e membro do conselho consultivo do 30% Club Brazil, referiu o poder do consumidor: “cada consumidor empoderado influencia a sua rede. O efeito multiplicador é enorme”, enquanto Ricardo Neto, presidente da Novo Verde e da ERP Portugal, assinalou que “a transição é humana".
A tecnologia não chega se não mudarmos comportamentos”, lembrando o trabalho de sensibilização com escolas e a necessidade de usar embalagens e redes sociais como veículos de educação. A visão da saúde pública foi apresentada por Susana Viegas, Professora da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, que enfatizou a importância da literacia, e Yavuz Eroglu, presidente da Fundação da Indústria do Plástico da Turquia (PAGEV), advogou uma voz global do setor baseada em ciência, alertando contra “o politicamente correto que desvirtua o debate”.
O debate prosseguiu com o painel ‘Manter o ciclo: reforçar a circularidade’, moderado por Liliam Benzi, consultora de comunicação da ABIEF e fundadora da LDB Comunicação Empresarial. Neste, a circularidade foi analisada sob diferentes ângulos — regulação, mercado, inovação e financiamento —, mas com um denominador comum: a necessidade de confiança e cooperação entre todos os intervenientes.
A gestão dos sistemas de responsabilidade alargada do produtor (RAP) esteve no centro das atenções. Ana Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde, ressaltou que os recursos da RAP devem ser canalizados para a recolha e valorização de embalagens, evitando que sirvam para suprir carências orçamentais das autarquias. Uma preocupação que se ligou à ideia de Rita Nabeiro, presidente do BCSD Portugal, que observou que só com articulação entre setores será possível escalar soluções: “Sem escala e confiança não há circularidade.”
O mercado de materiais reciclados foi analisado por Carolina Holland, analista sénior de plásticos da ICIS. A analista destacou uma queda na procura devido ao preço do material virgem, mas antecipou recuperação com a nova regulamentação europeia: “O desafio será garantir qualidade e diversidade de reciclados”.
Também os materiais compostáveis tiveram relevância. Marco Versari, presidente do Consorzio Biorepack, recordou que cerca de 40% dos resíduos urbanos são restos alimentares e defendeu que as embalagens compostáveis contribuem para melhorar a recolha orgânica e gerar composto de qualidade.
A inovação tecnológica foi abordada por Sally Beken, responsável pela UK Circular Plastics Network na Innovate UK Business Connect, que indicou como prioridades a mudança de comportamento do consumidor, o desenvolvimento de novos materiais, infraestruturas adequadas e a escalabilidade do refill. Stefano Soro, da Comissão Europeia, assinalou o papel do Passaporte Digital de Produtos na rastreabilidade.
Na vertente financeira, Alicia Rubi, sócia da EY, apresentou mecanismos como acordos de pré-compra e financiamento misto para acelerar as tecnologias de reciclagem.
Para concluir os trabalhos, o quarto painel, moderado por Jorge Cristino, sócio da Get2C e consultor em Ação Climática e Transição Sustentável, debruçou-se sobre o tema ‘Arquitetura de Ecossistemas Regenerativos’.
O debate iniciou-se com Anselmo Crespo, diretor de conteúdos da CNN Portugal e TVI, que sublinhou o papel da comunicação como agente de mudança cultural, afirmando que o jornalismo deve inspirar confiança e dar visibilidade às soluções. “Temos de contar histórias que fiquem na memória”, disse.
Emmanuelle Maire, da Comissão Europeia, observou que a Europa “ainda está demasiado focada em evitar o dano”, quando o futuro exige restaurar e regenerar.
Els Bruggeman, da Euroconsumers, destacou que “os consumidores não são parte do problema, são o motor da solução”, apontando a necessidade de remover barreiras de preço e simplificar sistemas de devolução e reutilização.
A dimensão económica surgiu na voz de Alexandre Dangis, vice-presidente de Assuntos Corporativos Globais do grupo GreenDot, que descreveu o setor de forma realista: a reciclagem europeia enfrenta dificuldades para sobreviver num mercado instável. Defendeu previsibilidade regulatória e criação de mercados regionais para matérias-primas recicladas, alertando que, caso contrário, a economia circular se torna apenas um conceito vazio.
As intervenções de Jo Ruxton, fundadora da Ocean Generation, e Richard Thompson, professor de Biologia Marinha e diretor do Instituto Marinho da Universidade de Plymouth, trouxeram o impacto direto e a urgência científica. Ruxton demonstrou como histórias visuais — da poluição à regeneração comunitária — mobilizam ação. Thompson explicou que “a poluição plástica não é um problema de fim de vida, mas de todo o ciclo”, defendendo inovação no design e legislação robusta para estimular produtos realmente sustentáveis.
Rui Quadrado, da Tomra Systems, partilhou a experiência de Lisboa com sistemas de reutilização urbana e encerrou com uma mensagem prática: “Está na hora de agir — de tornar a circularidade visível e recompensadora.”
Entre ciência, políticas e cidadãos, ficou a certeza: regenerar é uma nova ética de colaboração, onde economia e planeta se reconstroem em conjunto.
Maria da Graça Carvalho, encerrou o encontro com um compromisso claro: construir “uma verdadeira economia circular”.
Na sessão de encerramento, Marta Moreira Marques, coordenadora do Comité Científico do evento, observou a evolução face à edição anterior, realçando o foco em soluções práticas e na mudança de comportamentos, “do consumidor à indústria”. A jovem marroquina Romaissae Eddibi, em nome da associação Big Heart, trouxe a voz da nova geração, lembrando que “o problema não é o plástico, são as nossas escolhas”.
Para fechar com chave de ouro, a ministra do Ambiente e da Energia, Maria da Graça Carvalho, encerrou o encontro com um compromisso claro: construir “uma verdadeira economia circular”, apoiada em medidas como o plano ‘Terra’ e o futuro Sistema Nacional de Depósito e Reembolso. “A economia circular só se concretiza com todos - é assim que construiremos o futuro”, concluiu, deixando ecoar na sala a ideia que melhor resumiu o Plastics Summit – Global Event 2025: o plástico pode ser parte da solução.
Sustainable Plastics
Além dos quatro painéis de discussão, que tiveram lugar no palco principal, o Plastics Summit – Global Event 2025 contou também com um espaço dedicado à apresentação de 14 projetos, desenvolvidos no âmbito da Agenda Sustainable Plastics do PRR, demonstrando soluções concretas e replicáveis para promover a economia circular do setor. Este ‘palco Sustainable Plastics’ contou, ainda, com a presença e intervenção de Pedro Dominguinhos, presidente da Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR.
Para quem opera no setor — desde transformadores a recicladores, passando por fornecedores e designers de embalagens — o foco nos projetos da Agenda representa uma aposta prática: novas cadeias de valor, utilização de matérias-primas secundárias, economia de recursos e redução de emissões, tudo num cenário em que a sustentabilidade deixa de ser apenas um vetor complementar e passa a ser um critério competitivo.
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