Atlas Copco Rental
Informação profissional para a indústria de plásticos portuguesa

Entrevista com Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol

“A indústria de moldes tem uma notável capacidade de adaptação, inovação e resposta a contextos adversos”

Foto

A Associação Nacional da Indústria de Moldes (Cefamol) representa um dos setores mais estratégicos da indústria transformadora portuguesa: a indústria de moldes. Com forte concentração nas regiões da Marinha Grande e Oliveira de Azeméis, o setor ocupa o terceiro lugar no pódio europeu e assume um papel determinante nas cadeias de valor internacionais, em particular no segmento automóvel, mas também na embalagem, eletrodomésticos e dispositivos médicos.

A recente passagem da tempestade Kristin pela região Centro, com especial incidência na Marinha Grande, veio introduzir um novo fator de instabilidade num setor que já enfrentava desafios significativos: pressão competitiva da Ásia, desaceleração da indústria automóvel europeia, aumento dos custos de produção e escassez de mão de obra qualificada.

Nesta entrevista à InterMetal, Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol, faz um ponto de situação detalhado sobre o impacto no terreno, avalia os apoios anunciados pelo Governo e analisa os desafios estruturais que colocam à prova a histórica resiliência da indústria portuguesa de moldes.

Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol
Manuel Oliveira, secretário-geral da Cefamol.

A metalomecânica nacional bateu, em 2025, um novo recorde de exportações. Qual é, atualmente, o peso da indústria de moldes no setor?

A indústria portuguesa de moldes registou, em 2025, um valor de exportação na ordem dos 635 milhões de euros, consolidando um posicionamento de excelência a nível internacional, sendo o terceiro maior produtor europeu. Estes dados demonstram um crescimento das exportações de 2,2% face ao ano transato, o que representa um dos segmentos com maior incorporação tecnológica, intensidade exportadora e valor acrescentado nesta área industrial.

A Marinha Grande continua a ser o epicentro desta indústria?

Digamos que a indústria de moldes, em Portugal, tem dois epicentros: a Marinha Grande e Oliveira de Azeméis, estendendo-se esta presença a vários dos concelhos limítrofes em cada uma das regiões. Podemos afirmar que o setor, a nível nacional, concentra cerca de 90% da sua produção num raio de 150km.

Qual é a real dimensão dos danos causados pela tempestade Kristin nas empresas da região?

A depressão Kristin provocou danos significativos em muitas empresas da região Marinha Grande/Leiria. De uma forma geral, todas as empresas foram, com maior ou menor impacto, afetadas. Houve danos registados nas estruturas e coberturas das unidades fabris, em equipamentos produtivos sensíveis e de alta tecnologia, agravados pelas chuvas intensas, pelas interrupções energéticas, por limitações ao nível das comunicações, as quais, obviamente, implicaram paragens produtivas. Para algumas unidades, os prejuízos diretos e indiretos ascendem a muitas centenas de milhares de euros, com impactos adicionais decorrentes de atrasos na produção e relações contratuais com clientes.

Os apoios prometidos pelo Governo são suficientes para garantir a recuperação plena dessas empresas?

Os apoios anunciados são um sinal positivo e necessário, mas, em muitos casos, não serão suficientes para assegurar uma recuperação plena. A natureza altamente tecnológica do setor implica custos elevados de reposição e recuperação de estruturas e equipamentos, bem como perdas associadas na interação com cadeias de fornecimento internacionais. Por outro lado, seria importante que os apoios não se limitassem à criação de maior endividamento das empresas.

Que medidas adicionais seriam necessárias?

Seria muito importante reforçar o apoio a fundo perdido nas linhas existentes, quer para reposição de equipamentos críticos, quer para reforço de tesouraria. Deveriam ser equacionados mecanismos de compensação por paragens produtivas em função da falta de energia e de comunicações, suportando os custos com o aluguer e utilização de geradores. Por outro lado, a simplificação e aceleração dos processos de candidatura e pagamento são imperativos, pedindo-se o mesmo às entidades seguradoras.

Numa fase seguinte, mas imediata, é muito importante termos um apoio à retoma da atividade exportadora e reforço da presença em mercados internacionais. Para o efeito, deve apostar-se numa campanha de imagem e promoção internacional forte e articulada com a AICEP.

Em termos setoriais, o desenvolvimento e implementação de um plano de ação estruturado e desenvolvido a médio prazo, que atue ao nível do posicionamento e diversificação de mercados, da diferenciação por via da inovação e I&D, não esquecendo áreas relacionadas com a gestão, os ganhos de escala e dimensão, a implementação de novos modelos de negócio e integração de novas competências será fundamental para relançar a indústria numa nova senda de sucesso.

Existe uma estimativa de quando será possível reestabelecer completamente a operacionalidade das unidades afetadas?

Não é fácil estipular uma data, uma vez que a recuperação varia de empresa para empresa. Algumas unidades conseguiram já retomar a atividade plena, outras estão no caminho, enquanto outras poderão necessitar de várias semanas ou meses, especialmente quando estão em causa infraestruturas e a operacionalização de equipamentos de elevada precisão. Uma recuperação plena do conjunto das empresas afetadas poderá estender-se até ao final do primeiro semestre de 2026.

Que fatores podem condicionar a recuperação?

Principalmente, a capacidade financeira e a tesouraria das empresas para suportar custos imediatos que podem derivar da rapidez na atribuição dos apoios públicos e da ativação dos mecanismos das seguradoras. Também o restabelecimento por completo, e sem oscilações, das redes elétricas e de comunicações são fundamentais.

Devemos também ter em conta outros fatores, como o tempo de reposição ou substituição de equipamentos danificados, tendo igualmente em conta a manutenção da confiança dos clientes internacionais.

Para além da tempestade, que outros fatores estão a pressionar a indústria de moldes?

O setor enfrenta hoje um conjunto de desafios estruturais que encontram expressão máxima nas atuais condições de negócio impostas pelos clientes que conjugam baixos preços de venda com longos ciclos de pagamento, criando limitações ao nível da tesouraria e financiamento. Por outro lado, é fundamental lembrar a forte e aguerrida concorrência internacional, nomeadamente a que tem origem fora da Europa.

Em paralelo, a atual instabilidade geopolítica global, a incerteza no crescimento dos nossos principais mercados geográficos (Europa) e setoriais (automóvel), promovendo uma reconfiguração das suas cadeias de fornecimento, originam instabilidade e uma dificuldade acrescida para definir uma intervenção consolidada e estabelecida fora do curto prazo.

A escassez de mão de obra continua a ser um problema?

Sim, continua a ser um dos constrangimentos críticos. A dificuldade em atrair e manter talento qualificado, sobretudo em áreas técnicas especializadas, condiciona a capacidade de crescimento e inovação. A renovação geracional, a integração de novos quadros, a formação e a valorização das carreiras profissionais no setor são desafios a ter em conta nas prioridades das empresas.

Que iniciativas concretas está a Cefamol a desenvolver para apoiar as empresas neste momento?

No que diz respeito aos efeitos da tempestade, a Cefamol tem vindo a fazer um levantamento sistemático dos danos nas empresas, articulando com entidades públicas ações que permitam ultrapassar as condicionantes imediatas relacionadas com a retoma da atividade produtiva (reconstrução, energia, comunicações, acessibilidades). Foi também promovida uma ‘Bolsa de Disponibilidade’, que permitiu que as empresas não afetadas prestassem apoio produtivo às demais. Em paralelo, junto do Governo, foi reforçada a representação institucional para identificar e ajustar as medidas e programas de apoio às reais necessidades da indústria. Neste sentido, realizaram-se várias reuniões e apresentaram-se propostas, algumas das quais em colaboração e coordenação com outras associações empresariais.

Mais estruturalmente, e em função dos desafios mais alargados que enfrentamos, temos vindo a colocar em marcha um plano de intervenção que, ao nível do mercado, contempla a imagem e promoção internacional, bem como a diversificação de mercados, incluindo a abordagem a novas geografias e áreas de negócio. Reforçamos a formação de quadros e técnicos das empresas, e promovemos encontros e sessões para análise e debate de novos fatores de competitividade, como sejam o posicionamento e relação com os clientes, novos modelos de negócio, 'governance', cooperação empresarial, novos instrumentos de financiamento e capitalização, entre muitos outros. A próxima fase passará por dinamizar programas de capacitação e implementação de competências nestas áreas dentro das empresas.

Apesar do contexto adverso, vê sinais de confiança no futuro da indústria portuguesa de moldes?

Claro que sim! É verdade que, atualmente, os desafios são grandes - e agora agravados por esta situação inesperada - mas o setor tem uma notável capacidade de adaptação, inovação e resposta a contextos adversos. A aposta em inovação, tecnologia, digitalização e sustentabilidade, aliada à conquista de novos mercados com base numa reputação internacional construída ao longo de décadas, dá-nos uma perspetiva de confiança no futuro.

Que mensagem gostaria de deixar às empresas da região neste momento particularmente exigente?

De confiança e cooperação. A história da indústria de moldes em Portugal demonstra uma extraordinária capacidade de superação e adaptação às circunstâncias do mercado. Este é um momento exigente, mas também uma oportunidade para reforçar a coesão do setor, acelerar a modernização organizacional e produtiva, abordar e conquistar novos mercados e áreas industriais e afirmar, com ainda mais força, a excelência das nossas competências, do nosso know-how, da nossa competitividade no panorama internacional.

“A aposta em inovação, tecnologia, digitalização e sustentabilidade, aliada à conquista de novos mercados com base numa reputação internacional construída ao longo de décadas, dá-nos uma perspetiva de confiança no futuro”

REVISTAS

Media Partners

NEWSLETTERS

  • Newsletter InterPlast

    23/02/2026

  • Newsletter InterPlast

    16/02/2026

Subscrever gratuitamente a Newsletter - Ver exemplo

Password

Marcar todos

Autorizo o envio de newsletters e informações de interempresas.net

Autorizo o envio de comunicações de terceiros via interempresas.net

Li e aceito as condições do Aviso legal e da Política de Proteção de Dados

Responsable: Interempresas Media, S.L.U. Finalidades: Assinatura da(s) nossa(s) newsletter(s). Gerenciamento de contas de usuários. Envio de e-mails relacionados a ele ou relacionados a interesses semelhantes ou associados.Conservação: durante o relacionamento com você, ou enquanto for necessário para realizar os propósitos especificados. Atribuição: Os dados podem ser transferidos para outras empresas do grupo por motivos de gestão interna. Derechos: Acceso, rectificación, oposición, supresión, portabilidad, limitación del tratatamiento y decisiones automatizadas: entre em contato com nosso DPO. Si considera que el tratamiento no se ajusta a la normativa vigente, puede presentar reclamación ante la AEPD. Mais informação: Política de Proteção de Dados

www.interplast.pt

InterPLAST - Informação profissional para a indústria de plásticos portuguesa

Estatuto Editorial