Realizado pela primeira vez no Porto, o Estudo de Mercado de Máquinas de Injeção de Plásticos da InterPlast voltou a reunir os principais fornecedores para uma leitura conjunta da evolução do mercado nacional. A 5.ª edição do encontro, que decorreu a 26 de fevereiro, na Associação ANJE, confirmou a relevância crescente desta iniciativa enquanto espaço de partilha estratégica, num momento em que a indústria enfrenta desafios estruturais e redefine prioridades de investimento.
A análise surge num cenário internacional de crescimento sustentado do mercado de plásticos injetados, que deverá ultrapassar os 400 mil milhões de dólares até ao final da década, impulsionado por setores como embalagem, saúde e bens de consumo, segundo a Fortune Business Insights. Paralelamente, a The Business Research Company aponta para uma evolução positiva suportada pela inovação tecnológica e pela incorporação de materiais reciclados, ainda que condicionada por fatores como os custos energéticos, a volatilidade das matérias-primas e a pressão regulatória.
É neste enquadramento que o Estudo de Mercado da InterPlast ganha particular relevância, ao permitir uma leitura concreta e fundamentada da realidade portuguesa, cruzando dados de vendas com a visão estratégica dos principais players da indústria.
O estudo assenta numa metodologia colaborativa e confidencial, baseada na recolha direta de dados de vendas do ano anterior junto dos fabricantes e representantes presentes no mercado nacional. O objetivo passa por construir uma leitura rigorosa da evolução do parque instalado, identificar tendências por áreas geográficas, segmentos de mercado e tonelagem e compreender a dinâmica de investimento da indústria transformadora.
Participaram nesta edição as empresas AGI (Fanuc), Arburg, Equipack (Engel), Folhadela Rebelo (KraussMaffei), Inautom (Tederic e JSW), Mapril (Boy e Billion), Netstal, Tecnofrias (Wittmann Group) e Jucatec (Yizumi).
Entre os principais resultados — de caráter confidencial — destacam-se dois indicadores: entre 2024 e 2025 registou-se um aumento pouco significativo no número de máquinas vendidas, sobretudo num segmento de baixa tonelagem, e o setor automóvel mantém-se como principal cliente da tecnologia de injeção.
De forma transversal, os participantes descrevem 2025 como um ano de continuidade face ao período anterior, marcado por alguma contenção no investimento e forte pressão sobre os preços.
Para Martin Cayre, diretor-geral da Arburg Portugal e Espanha, “os transformadores adotaram uma posição conservadora e, em geral, só avançaram com investimentos quando existiam projetos concretos assegurados”, num contexto influenciado pela fragilidade da economia europeia e pela pressão no setor automóvel.
“Num contexto de incerteza económica e pressão sobre os preços, as decisões de investimento tornaram-se mais seletivas e estão fortemente dependentes de projetos concretos que garantam retorno e competitividade.” — Martin Cayre, diretor-geral da Arburg
Também Hugo Brito, diretor-geral da Equipack, sublinha que “2025 acabou por ser uma continuação de 2024”, com pouca variação no número de máquinas vendidas e sinais de saturação em determinados segmentos de equipamentos standard.
Neste enquadramento, Rui Folhadela, sócio-gerente da Folhadela Rebelo, reforça que “2025 foi marcado por um contexto exigente”, destacando o impacto direto da quebra na indústria automóvel europeia, a volatilidade dos custos de matérias-primas e energia e a crescente pressão regulatória. Ainda assim, sublinha a capacidade de adaptação do setor, que tem vindo a responder com maior foco na eficiência, sustentabilidade e inovação.
Já Tiago Coelho, gerente da Augusto Guimarães & Irmão (AGI), caracteriza o período como um “ano de consolidação”, com evolução desigual entre setores, onde aplicações como embalagem ou energia mantiveram maior dinamismo do que o automóvel.
“A indústria atravessa um momento exigente, marcado pela pressão regulatória e pelos custos, mas também por uma crescente necessidade de eficiência, sustentabilidade e inovação, que está a redefinir a forma como as empresas competem.” — Rui Folhadela, sócio-gerente da Folhadela Rebelo
Uma das conclusões mais consistentes entre os participantes no Estudo prende-se com a mudança no comportamento de compra. Muitos concordam que o investimento deixou de estar centrado no equipamento em si para passar a privilegiar o desempenho global do processo.
Segundo Alex Freixa, diretor comercial da Netstal, “o cliente já não compra uma máquina, compra um resultado em produtividade, estabilidade e custo por peça”, com crescente foco no TCO (Total Cost of Ownership) e na eficiência energética.
“O mercado não está a crescer em volume de máquinas, o que obriga os fornecedores a focarem-se cada vez mais em soluções complementares que ajudem os clientes a otimizar a produção, aumentar a eficiência e tirar maior partido dos equipamentos existentes.” — Hugo Brito, diretor-geral da Equipack
Tecnologia com aplicação prática no chão de fábrica
A digitalização, a automação e a monitorização em tempo real continuam a afirmar-se como pilares da evolução tecnológica do setor, mas com uma abordagem cada vez mais pragmática.
Para Tiago Coelho, o mercado procura “soluções eficientes, acessíveis e integráveis na realidade produtiva”, onde a estabilidade do processo e a capacidade de controlo em tempo real são determinantes.
Na mesma linha, Alex Freixa reforça que a tecnologia deixou de ser um fim em si mesmo: “não se pede tecnologia pela tecnologia, mas sim indicadores concretos de desempenho”.
Neste contexto, ferramentas de assistência ao processo, inteligência artificial e integração máquina-molde-robô assumem um papel crescente, contribuindo para reduzir a dependência do operador e aumentar a repetibilidade.
“A competitividade passa cada vez mais por processos estáveis, monitorizados e eficientes, onde a tecnologia não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta para produzir com qualidade, menor custo e menor impacto ambiental.” — Tiago Coelho, gerente da AGI
A pressão regulatória europeia e a necessidade de incorporar materiais reciclados estão a redefinir prioridades no investimento.
Rui Folhadela destaca uma “procura crescente por soluções que combinem desempenho técnico com eficiência energética e menor impacto ambiental”, num contexto em que os transformadores são obrigados a adaptar processos e produtos às novas exigências.
Ao mesmo tempo, a sustentabilidade surge cada vez mais ligada à eficiência operacional — menos consumo de energia, menor desperdício e maior controlo do processo.
A análise dos participantes evidencia também uma crescente assimetria no mercado nacional.
Ricardo Reis, gestor operacional & marketeer na Jucatec, refere diferenças significativas entre regiões, com maior dinâmica de investimento no Norte face ao Centro e Sul, além do impacto de fatores externos como eventos climáticos e constrangimentos logísticos.
A geopolítica continua igualmente a influenciar o setor, sobretudo ao nível dos custos energéticos, cadeias de abastecimento e previsibilidade do investimento, levando as empresas a adotar estratégias mais prudentes e orientadas para a gestão do risco.
“O cliente deixou de comprar uma máquina isolada para passar a investir em resultados industriais concretos, onde produtividade, estabilidade do processo, consumo energético e custo por peça são os verdadeiros critérios de decisão.” — Alex Freixa, diretor comercial da Netstal
As perspetivas para 2026 são, de forma geral, cautelosamente moderadas. Não se antecipam crescimentos expressivos, mas sim uma continuidade das tendências atuais, com maior seletividade no investimento.
Se para alguns intervenientes o ano poderá trazer oportunidades, nomeadamente em setores mais resilientes como embalagem ou a indústria médica, outros antecipam um cenário mais desafiante, condicionado pela evolução económica global.
Ainda assim, há consensos claros quanto às tendências estruturais: maior automação, digitalização orientada para resultados, eficiência energética como fator competitivo e crescente integração de soluções completas.
Como sintetiza Alex Freixa, “a eficiência como vantagem competitiva, a digitalização prática e os projetos chave na mão serão determinantes para o futuro do setor”.
O Estudo de Mercado de Máquinas de Injeção já se estabeleceu como um ponto de encontro anual dos fornecedores destes equipamentos.
Com uma participação representativa dos principais players do mercado, a 5.ª edição do Estudo de Mercado de Máquinas de Injeção da InterPlast voltou a afirmar-se como uma ferramenta essencial de leitura do setor — não apenas pelos dados que recolhe, mas pela capacidade de captar, em primeira mão, as tendências que irão moldar a indústria da transformação de plásticos em Portugal.
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