A reciclabilidade das embalagens deixou há muito de ser apenas uma questão técnica. Entre novas exigências regulatórias, sistemas de recolha insuficientes, dificuldades de triagem e a necessidade de alinhar toda a cadeia de valor, o desafio tornou-se estrutural. E obriga indústria, retalho, recicladores e consumidores a trabalharem em conjunto. Uma discussão que ganhou relevância na 10.ª edição da Empack, que promoveu um debate subordinado ao tema ‘Os desafios da reciclabilidade das embalagens’, centrado nas dificuldades que continuam a impedir que muitas embalagens sejam efetivamente recicladas no final do seu ciclo de vida.
Na abertura da sessão, Bruno Pereira da Silva, diretor de Sustentabilidade do Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP) e moderador do painel, resumiu a questão central do debate: “Hoje nós já sabemos como desenhar embalagens recicláveis, já conseguimos produzi-las e colocá-las no mercado. A pergunta central é: porque é que a reciclabilidade continua a ser um desafio?”.
Segundo o responsável, o novo Regulamento Europeu de Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR) veio transformar uma discussão técnica numa questão sistémica, obrigando toda a cadeia de valor a convergir para objetivos comuns.
A importância de compreender o funcionamento dos sistemas de reciclagem foi um dos temas mais destacados ao longo da sessão.
Milena Parmigoni, especialista em economia circular da Logoplaste Innovation Lab, explicou que a definição de uma embalagem verdadeiramente reciclável começa muito antes da produção industrial. “Para perceber a reciclabilidade de uma embalagem, tínhamos que perceber, antes de tudo, o fim de vida do produto”, afirmou.
A responsável recordou que os sistemas de reciclagem variam significativamente entre países, obrigando empresas globais a adaptar estratégias e soluções aos diferentes contextos regulatórios e operacionais. “Reciclar na Europa é diferente de reciclar nos Estados Unidos ou no Brasil”. Perante essa realidade, a Logoplaste optou por seguir as guidelines definidas pelos próprios recicladores, “que são quem fecha o ciclo”, explicou.
Milena Parmigoni deu como exemplo o trabalho desenvolvido pela empresa em Inglaterra, onde há mais de dez anos participa na criação de circuitos fechados para embalagens de leite em HDPE de grau alimentar, uma das poucas aplicações aprovadas para contacto alimentar na Europa.
Além do design, a especialista defendeu a necessidade de participar ativamente na construção dos próprios sistemas de reciclagem. “Criamos embalagens para que os sistemas fechem o ciclo”, resumiu.
Durante a Empack 2026, quatro especialistas debateram ‘Os desafios da reciclabilidade das embalagens’. Da esquerda para a direita: Natércia Garrido, responsável pela gestão da qualidade, ambiente e segurança da Silvex, Bruno Pereira da Silva, diretor de Sustentabilidade do Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP), Milena Parmigoni, especialista em economia circular da Logoplaste Innovation Lab, e Pedro Santana, responsável de packaging da Sonae MC.
Também Natércia Garrido, responsável pela gestão da qualidade, ambiente e segurança da Silvex, considerou que o principal problema da reciclabilidade deixou de estar na capacidade técnica da indústria para desenvolver embalagens mais sustentáveis. “Diria que o material já não é o problema desta equação”, afirmou. “É sim o fim de vida que lhe é dado”.
Segundo a responsável, muitas soluções ambientalmente vantajosas acabam por falhar porque os sistemas de recolha, separação e valorização continuam insuficientes. “Nós podemos ter a melhor embalagem do mundo, mas se o fim de vida dela não é assegurado, nada funciona”, alertou.
Natércia Garrido destacou particularmente o caso das embalagens biodegradáveis, frequentemente apresentadas como solução ambiental, mas que podem gerar novos problemas quando não existe recolha seletiva de resíduos orgânicos. “Esta embalagem vai ser mais prejudicial para o sistema da reciclagem do que se ela não existisse”.
A responsável alertou ainda para a tendência de decisões tomadas “de forma emotiva” e sem base científica, dando como exemplo a substituição dos copos de plástico por copos de papel revestidos a plástico. “Tínhamos copos de plástico que podiam ser reciclados e ficámos com copos de papel que não podem ser reciclados”, criticou.
Para Natércia Garrido, a sustentabilidade das embalagens só pode ser avaliada através de uma análise completa do ciclo de vida, incluindo impacto ambiental, desempenho funcional e consequências sociais e económicas.
A ideia de que a reciclabilidade depende do funcionamento integrado de todo o ecossistema foi igualmente defendida por Pedro Santana, responsável de packaging da Sonae MC. “O problema não está só na embalagem, nem só no sistema, nem só na recolha”, afirmou. “Vai depender sempre de termos embalagens desenhadas para serem o mais recicláveis possível e de existir um sistema de gestão e tratamento.”
O responsável considerou que muitas soluções aparentemente sustentáveis acabam por falhar precisamente porque os sistemas de recolha e valorização não acompanham a inovação industrial. Sublinhou ainda que os desafios variam significativamente entre países. O exemplo italiano foi repetidamente referido ao longo do painel como um caso de maior maturidade na recolha de bioresíduos e na integração de bioplásticos nos sistemas de gestão de resíduos.
Milena Parmigoni recordou que, em várias cidades italianas, existe recolha porta-a-porta há mais de duas décadas, incluindo resíduos orgânicos e bioplásticos. “É um sistema completo. Eficiente”, resumiu.
Natércia Garrido acrescentou que a recolha seletiva de bioresíduos em Itália permitiu reduzir significativamente a contaminação dos plásticos tradicionais, aumentando a quantidade de material efetivamente reciclado.
Questionada sobre a capacidade de os sistemas de reciclagem acompanharem o ritmo da inovação, Milena Parmigoni considerou que também a reciclagem está a evoluir rapidamente. “O sistema de reciclagem está a evoluir também”, afirmou, apontando o recurso crescente a inteligência artificial, tecnologias avançadas de triagem, marcadores digitais e reciclagem química. Ainda assim, considera que continua a existir uma lacuna fundamental: a recolha. “O que falta? Recolha, fundamentalmente”, sintetizou.
A especialista defendeu igualmente que os próximos anos serão decisivos para reforçar conhecimento técnico dentro da própria cadeia de valor. “O que falta ainda muito é conhecimento”, afirmou.
Segundo Milena Parmigoni, será necessário testar continuamente materiais, tintas, colas, etiquetas e combinações de componentes para garantir que as embalagens cumprem efetivamente os critérios de reciclabilidade definidos pelo PPWR. “Testar, testar, testar”, resumiu.
Ao longo do painel, a Silvex apresentou vários exemplos concretos de aplicação de reciclado pós-consumo em novos produtos.
Natércia Garrido recordou que a empresa trabalha com reciclagem interna desde os anos 90, mas explicou que a perceção sobre o reciclado mudou profundamente ao longo das últimas décadas. “Usar reciclado era quase fazer um downgrade à qualidade do produto”, lembrou.
Com a crescente pressão ambiental, a empresa optou por investir numa unidade própria de reciclagem pós-consumo, recolhendo plástico diretamente das grandes cadeias de distribuição e transformando-o em nova matéria-prima.
Entre os exemplos apresentados esteve a produção dos sacos utilizados para recolha de cápsulas da Nespresso, fabricados com material reciclado proveniente da própria operação da empresa.
Segundo Natércia Garrido, a nova solução permitiu reduzir em 78% a pegada carbónica face à versão anterior produzida com matéria-prima virgem. A responsável revelou ainda que alguns produtos da Silvex já incorporam passaporte digital, através de QR codes que permitem rastrear o percurso da embalagem, identificar a origem do material reciclado e fornecer informação detalhada ao consumidor. “O passaporte digital vai contar a história do produto”, explicou.
Do lado do retalho, Pedro Santana admitiu que a sustentabilidade já influencia as decisões de compra, embora o preço continue a ser determinante para grande parte dos consumidores. “Há consumidores para quem a sustentabilidade é um fator principal”, reconheceu. “Mas a maioria continua a olhar sobretudo para o preço.” Perante isso, a prioridade passa por encontrar soluções sustentáveis que tenham o menor impacto possível no custo final das embalagens.
Pedro Santana defendeu igualmente a necessidade de educar os consumidores e combater o greenwashing. “Temos que ensinar o consumidor a ter sentido crítico quando olha para uma embalagem”, afirmou.
Na reta final do painel, os oradores analisaram os impactos do novo regulamento europeu PPWR.
Milena Parmigoni considerou que o regulamento já está a transformar profundamente os processos de desenvolvimento de embalagens. “Não há projeto na Logoplaste que não seja acompanhado, desde o princípio, por uma análise da reciclabilidade”, afirmou. Segundo a especialista, os maiores desafios surgem precisamente quando é necessário equilibrar funcionalidade, desempenho e reciclabilidade. “É aí que entra a inovação”.
Pedro Santana admitiu alguma apreensão relativamente aos prazos de implementação, sobretudo para pequenas empresas e fornecedores menos preparados tecnicamente. “2030 está aí”, alertou. Ainda assim, considera que o regulamento acabará por trazer benefícios através da harmonização de regras e da criação de sistemas mais robustos de reciclagem.
Já Natércia Garrido mostrou-se mais otimista. “Olho para isto como um ponto de partida. Para a responsável da Silvex, o PPWR representa o início de uma trajetória inevitável, ainda que sujeita a ajustes ao longo do caminho. “Todos estamos obrigados a cumprir os mesmos desígnios”, concluiu.
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