O Regulamento Europeu de Embalagens e Resíduos de Embalagens impõe novas metas de reciclabilidade, reutilização e incorporação de reciclado. Na última edição da feira Empack, indústria, reciclagem, ciência, gestão de resíduos e consumidores debateram se a cadeia de valor está preparada para este desfio.
A entrada em vigor do novo Regulamento Europeu de Embalagens e Resíduos de Embalagens (PPWR) está a obrigar toda a cadeia de valor a repensar a forma como produz, utiliza, recolhe e recicla embalagens. Entre metas de reciclabilidade, incorporação obrigatória de reciclado, reutilização e novos critérios ambientais, o setor enfrenta um processo de transformação que vários intervenientes classificam já como inevitável. E profundamente exigente. Foi precisamente este o ponto de partida da mesa-redonda ‘PPWR: a nova era das embalagens | Estará a cadeia de valor preparada?’, promovida pela Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos (APIP) no âmbito da 10.ª edição da Empack, Logistics & Automation, onde indústria, reciclagem, gestão de resíduos, sistema científico e consumidores debateram os impactos do novo regulamento europeu.
Na abertura do debate, o moderador Nuno Aguiar, da APIP, sublinhou que o setor está “a menos de três meses da entrada efetiva da aplicação deste novo regulamento de embalagens e resíduos de embalagem”, defendendo que o PPWR “vai criar uma nova era para o setor das embalagens tal qual conhecemos até à data”.
O impacto das novas exigências começa logo na conceção das embalagens. Rui Toscano, diretor de Sustentabilidade e Logística do Grupo Polivouga, descreveu o efeito do regulamento como “profundamente impactante desde a estrutura molecular do produto”. Segundo o responsável, o PPWR introduz duas obrigações estruturantes que terão de ser cumpridas em simultâneo: reciclabilidade e incorporação de reciclado. “Todas as embalagens terão que ser recicláveis a partir de 1 de janeiro de 2030”, recordou, acrescentando que as embalagens que não atingirem determinados níveis de reciclabilidade poderão ser excluídas do mercado.
Na prática, explicou, isso está já a obrigar a indústria a abandonar estruturas multicamada tradicionais e a migrar para soluções monomaterial, sobretudo em aplicações alimentares, onde as exigências técnicas continuam elevadas. “A opção técnica foi migrar para estruturas monomaterial, estamos a falar do full PE, do full PP”, afirmou.
Ainda assim, Rui Toscano alertou que a substituição não é simples. As estruturas multicamada continuam a desempenhar funções essenciais de barreira ao oxigénio, humidade e odor, além de garantirem propriedades mecânicas necessárias à conservação dos produtos.
Também Bruno Pereira da Silva, diretor de Sustentabilidade do Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP), considerou que o principal desafio não está nos objetivos do regulamento, mas sim “na sua concretização em contexto industrial”. O responsável identificou quatro grandes desafios: a reciclabilidade efetiva das embalagens, a substituição de materiais sem comprometer a função, a incorporação de reciclado em aplicações sensíveis — como alimentar, médica e farmacêutica — e a falta de métricas harmonizadas. “A embalagem por si só não é um invólucro”, sublinhou. “Ela garante segurança, ‘shelf life’ e qualidade.” Sem essa proteção, acrescentou, o desperdício alimentar poderia aumentar significativamente, com um impacto ambiental ainda maior.
Bruno Pereira da Silva defendeu ainda um papel mais próximo do sistema científico e tecnológico das empresas, nomeadamente através do desenvolvimento de novos materiais, testes laboratoriais, avaliação de ciclo de vida e projetos-piloto. “O sucesso do PPWR vai depender menos da tecnologia em si e mais da capacidade de ligarmos ciência, inovação, indústria e regulação de forma eficaz”, afirmou.
A mesa-redonda ‘PPWR: a nova era das embalagens | Estará a cadeia de valor preparada?’, promovida pela APIP, contou com a participação de Nuno Aguiar, diretor técnico da APIP, Elsa Agante, team leader de Energia e Sustentabilidade da DECO PROteste, Bruno Pereira da Silva, diretor de Sustentabilidade do Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP), Ricardo Pereira, CEO da Sirplaste, Rui Toscano, diretor de Sustentabilidade e Logística do Grupo Polivouga, e Pedro Simões, diretor-geral da Novo Verde.
Ao longo do debate, uma das ideias mais repetidas foi a de que Portugal dispõe de capacidade industrial de reciclagem, mas continua sem recolher resíduos suficientes para alimentar essa capacidade.
Ricardo Pereira, CEO da Sirplaste, afirmou mesmo que as empresas portuguesas de reciclagem “estão no topo” em termos tecnológicos. “Temos das melhores empresas de reciclagem do mundo em Portugal”, garantiu. O problema, acrescentou, é outro: “Todas elas importam matéria-prima para reciclar, porque não temos matéria-prima suficiente em Portugal.” Segundo o responsável, existe atualmente excesso de capacidade instalada face à quantidade de resíduos recolhidos. “As nossas empresas poderiam crescer muito mais, mas não temos matéria-prima suficiente”, alertou.
Apesar disso, Ricardo Pereira considera que a qualidade dos resíduos recolhidos em Portugal é positiva quando comparada com outros países europeus. Ainda assim, insiste que a maior intervenção deve acontecer na origem. “A embalagem tem que ser desenhada e pensada para ser reciclada e essa é a maior ajuda que nos poderiam dar”, afirmou.
O CEO da Sirplaste deixou vários exemplos de embalagens que continuam a dificultar os processos de reciclagem, desde materiais incompatíveis até pequenos componentes que contaminam os fluxos de reciclagem.
Também Pedro Simões, diretor-geral da Novo Verde, apontou a recolha como um dos principais estrangulamentos do sistema atual. “O potencial está na recolha”, defendeu. Recordou também que Portugal investiu fortemente em infraestruturas de tratamento nas últimas décadas, mas que o sistema tarifário e os modelos de recolha pouco evoluíram desde então. “Nós continuamos a pagar os nossos resíduos em função da água que consumimos”, criticou.
Pedro Simões defendeu ainda uma maior aposta em sistemas de recolha próprios e complementares, associados a incentivos diretos ao consumidor. “As pessoas têm que sentir efetivamente que têm um benefício em entregar os seus resíduos”, afirmou.
Do lado dos consumidores, Elsa Agante, team leader de Energia e Sustentabilidade da DECO PROteste, reconheceu que o sucesso do novo regulamento dependerá inevitavelmente da participação dos cidadãos.
A responsável destacou o novo sistema de depósito e reembolso para embalagens de bebidas como uma ferramenta potencialmente eficaz para aumentar as taxas de recolha. “Conceptualmente, é um dos sistemas mais eficazes para aumentar as taxas de recolha”, afirmou, apontando exemplos como Alemanha, países nórdicos e Irlanda. Ainda assim, alertou para vários fatores críticos, sobretudo ao nível da conveniência. “Se não for simples, se for encarado como mais uma tarefa, dificilmente será bem aceite”, afirmou.
A DECO PROteste considera igualmente fundamental garantir uma boa cobertura geográfica, evitar falhas nas máquinas de devolução e encontrar um equilíbrio adequado para o valor do depósito. “O valor do depósito também não pode ser tão baixo que não valha a pena estar a depositar”, observou.
Questionada sobre a disponibilidade dos consumidores para pagar mais por produtos sustentáveis, Elsa Agante admitiu existir uma diferença entre intenção e comportamento real. “Existe um gap entre aquilo que as pessoas dizem que estão dispostas a fazer e aquilo que realmente fazem”, afirmou.
Segundo a responsável, o preço continua a ser o principal fator de decisão na compra, embora os consumidores demonstrem crescente preocupação com a sustentabilidade e maior atenção aos rótulos ambientais. “Havendo uma garantia que não é greenwashing e que faz algum sentido, podem pagar um pouco mais”, reconheceu.
A credibilidade da informação ambiental foi outro dos temas centrais do debate. Bruno Pereira da Silva defendeu que o combate ao greenwashing exige certificação, rastreabilidade e metodologias harmonizadas. Neste contexto, destacou o papel das certificações ambientais, das avaliações de ciclo de vida e das declarações ambientais de produto (EPD), considerando que estes instrumentos serão fundamentais para validar alegações ambientais e permitir comparações transparentes entre produtos.
Além disso, apontou o futuro passaporte digital dos produtos como uma ferramenta decisiva para aumentar a transparência ao longo da cadeia de valor. “Será fundamental”, afirmou. “Irá prestar informação ao consumidor, às empresas e trazer maior transparência.”
Apesar dos desafios, Bruno Pereira da Silva acredita que o PPWR pode transformar-se numa oportunidade para reforçar a competitividade europeia e portuguesa. “Quando colocamos os produtos no fim de vida nos sítios corretos, temos capacidade e competência para os transformar em matéria-prima”, defendeu.
Na reta final do debate, Rui Toscano voltou a intervir para abordar uma das dimensões mais polémicas do PPWR: as metas de reutilização para embalagens de transporte. No seu discurso, classificou o regulamento como “um tsunami regulatório”, embora reconheça os benefícios associados à obrigatoriedade da reciclabilidade. Ainda assim, considera que as metas de reutilização previstas para embalagens flexíveis criam um “paradoxo tremendo”.
Segundo Rui Toscano, os sistemas obrigatórios de reutilização podem, em determinados casos, gerar um desempenho ambiental pior do que soluções recicláveis de utilização única. Citando estudos da OPC e da Deloitte, o responsável afirmou que estes sistemas poderão representar custos entre “4,9 a 6 mil milhões” de euros para a indústria europeia e gerar uma pegada carbónica significativamente superior. “As embalagens flexíveis não podem ser reutilizadas porque perdem a sua função”, argumentou.
Apesar das divergências e das dificuldades identificadas ao longo do painel, o consenso final foi claro: o sucesso do PPWR dependerá da articulação entre todos os intervenientes da cadeia de valor, da indústria ao consumidor, passando pela ciência, reciclagem e gestão de resíduos. “Só assim conseguiremos atingir estes objetivos”, concluiu Nuno Aguiar no encerramento da sessão.
www.interplast.pt
InterPLAST - Informação profissional para a indústria de plásticos portuguesa