Há uma diferença importante entre desenvolver tecnologia para um automóvel e desenvolver o próprio automóvel. O BEN nasceu do segundo desafio. Concebido e desenvolvido pelo CEiiA, em Matosinhos, o pequeno elétrico reúne engenharia de produto, integração de sistemas, software e conhecimento industrial num projeto que procura levar uma solução de mobilidade portuguesa para o mercado europeu.
Desenvolvido pelo CEiiA, o BEN é um pequeno citadino elétrico, pensado para responder às necessidades de mobilidade nos meios urbanos.
Com 2,5 metros de comprimento, o BEN foi apresentado como um citadino compacto, acessível e sustentável - o veículo incorpora um contador de emissões de CO2, capaz de compensar a pegada carbónica da produção com as emissões evitadas durante a utilização, através da tecnologia AYR (1).
O projeto recebeu homologação europeia em dezembro de 2025 e entrou, em 2026, numa fase inicial de produção. Os primeiros lotes estão a ser fabricados na chamada BEN Garage, uma unidade interna do CEiiA, enquanto se prepara uma estrutura capaz de aumentar a escala produtiva.
A dimensão reduzida é apenas uma parte da equação. O conceito desenvolvido pelo CEiiA assenta numa ideia pouco convencional para a indústria automóvel: o utilizador não tem necessariamente de possuir o veículo para o utilizar. O BEN foi pensado para comunidades, condomínios, empresas e operadores, podendo ser adquirido em grupos e partilhado entre diferentes utilizadores. Numa primeira fase, a comercialização está prevista em lotes de, pelo menos, dez unidades.
A lógica aproxima-se, em alguns aspetos, dos modelos de partilha já conhecidos nas bicicletas e trotinetes elétricas, mas aplicada a um veículo automóvel. Em vez de vários carros utilizados durante poucas horas por dia, a proposta passa por aumentar a taxa de utilização de cada unidade, articulando diferentes perfis de mobilidade. A plataforma digital assume, por isso, um papel tão importante como o próprio veículo.
É neste ponto que o BEN se diferencia. Segundo Helena Silva, CTO do CEiiA, o projeto foi desenvolvido não apenas em torno da componente física, mas também de uma plataforma digital destinada a gerir a utilização partilhada. O veículo foi pensado para estar permanentemente conectado e preparado para futuras funcionalidades de condução autónoma.
O conceito está integrado na visão de mobilidade do CEiiA, que trabalha desde o desenvolvimento automóvel e engenharia de produto até à mobilidade elétrica e aos serviços digitais associados. A própria organização apresenta o BEN como um veículo destinado a integrar um novo serviço de mobilidade, denominado X4US, e a ser industrializado através da BEN4US.
Esta combinação entre hardware e software é particularmente interessante do ponto de vista industrial. O automóvel deixa de ser encarado como um produto fechado no momento da venda e passa a funcionar como uma plataforma capaz de gerar serviços ao longo da sua utilização. É uma mudança que aproxima a indústria automóvel de outros setores onde o produto físico é apenas uma componente de uma solução mais ampla.
O conceito também introduz uma questão relevante para a indústria transformadora: quanto automóvel é realmente necessário para uma deslocação urbana? O BEN parte de uma resposta minimalista. Dimensões compactas, utilização elétrica, simplicidade e um desenho orientado para a função procuram reduzir a complexidade do produto e, consequentemente, criar condições para uma produção mais acessível.
O percurso do BEN revela igualmente uma relevante ambição industrial. O CEiiA pretende utilizar o projeto para demonstrar a capacidade portuguesa de desenvolver um veículo completo e criar uma cadeia de industrialização associada.
A produção inicial é ainda de pequena escala. Em junho, o centro de engenharia indicava estar a fabricar os primeiros lotes de dez unidades e preparava uma futura unidade industrial para atingir centenas de veículos. Foi também estabelecido um acordo com a Micro e a AMFI, fabricantes do Microlino, para produzir o BEN em Turim, Itália. A intenção passa por construir uma rede europeia de produção descentralizada, mantendo Portugal como uma das localizações possíveis.
A industrialização será determinante para a concretização de outra meta: atingir volumes que permitam reduzir significativamente o preço do veículo. Em declarações ao podcast Mobi Boom, do Expresso, Helena Silva referiu que, a partir de uma produção de cinco mil unidades por ano, o BEN poderá atingir um preço na ordem dos oito mil euros.
O valor é particularmente relevante num mercado onde a eletrificação continua a enfrentar o obstáculo do preço de aquisição. Um veículo urbano pequeno, simples e produzido em volumes suficientemente elevados poderá ocupar um espaço entre a mobilidade individual ligeira e o automóvel convencional.
Para a indústria portuguesa de componentes, o projeto representa também um caso interessante de desenvolvimento de produto a partir de engenharia nacional. O CEiiA explica que os parceiros envolvidos no desenvolvimento de sistemas, módulos e componentes deverão participar posteriormente como fornecedores durante a fase de industrialização. O desafio será transformar uma cadeia de parceiros de desenvolvimento numa cadeia produtiva capaz de responder a volumes, custos, qualidade e cadências industriais.
Este projeto nasce, assim, com uma dimensão que ultrapassa o veículo. É um exercício de engenharia, industrialização e desenho de novos serviços de mobilidade. A aposta numa arquitetura compacta e numa forte componente digital acompanha uma tendência europeia para veículos urbanos mais pequenos e soluções de mobilidade menos dependentes da posse individual.
Para a indústria portuguesa, a questão decisiva será agora a escala. O salto entre protótipo, pré-série e produção regular é onde muitos projetos tecnológicos encontram as maiores dificuldades. No caso do BEN, esse salto será também o teste à capacidade de Portugal transformar conhecimento de engenharia em produto industrial europeu.
Se conseguir fazê-lo, o pequeno veículo desenvolvido em Matosinhos poderá acabar por ter uma importância maior do que as suas dimensões deixam adivinhar.
(1) Desenvolvida pelo CEiiA, a AYR é uma plataforma que permite quantificar e valorizar, em tempo real, as emissões de CO2 evitadas durante as deslocações em meios de mobilidade sustentável, como o BEN. As emissões evitadas são depois convertidas em ativos ambientais transacionáveis, com a atribuição de um valor concreto ao carbono evitado. Em 2021, a AYR foi distinguida pela CE com o Prémio do Novo Bauhaus Europeu e pela Google.org no âmbito do 'Impact Challenge on Climate'. Em 2024 foi galardoada com o Prémio Inovação da Imprensa Nacional Casa da Moeda.

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