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Informação profissional para a indústria de plásticos portuguesa
Open Day i6.0 no Grupo Erofio

Fabrico aditivo desafia a indústria a repensar o desenho e a produção de peças

Marta Clemente26/10/2026

O fabrico aditivo está a transformar as possibilidades de desenvolvimento na indústria de moldes e plásticos, mas a sua aplicação exige mais do que tecnologia: implica repensar o desenho das peças, os processos de produção e a forma como se cria valor industrial. Foi esta a ideia central do Open Day i6.0 – Indústria Sustentável, que reuniu empresas, entidades públicas e especialistas a 9 de outubro, nas instalações do Grupo Erofio, na Jardoeira, na Batalha.

Promovida pela Agência para a Competitividade e Inovação (IAPMEI), a iniciativa Open Days i6.0 – Indústria Sustentável procura dar visibilidade a boas práticas de digitalização nas empresas portuguesas, aproximando a modernização dos processos produtivos da eficiência das organizações. Na Erofio, o encontro, que contou com a presença do secretário de Estado da Economia, João Ferreira, centrou-se no papel do fabrico aditivo na passagem do design à produção, com a partilha da experiência do grupo industrial e uma mesa-redonda que reuniu representantes do IAPMEI, da WeAdd, da PrimeOut e do próprio grupo organizador.

De esquerda para a direita...

De esquerda para a direita: Rodrigo Passos, diretor de Capacitação Empresarial do IAPMEI, Paulo Mauritti, vogal do Conselho Diretivo do IAPMEI, e Manuel Novo, administrador do Grupo Erofio. Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop.

Do desenho à decisão industrial

Na sessão de abertura, Manuel Novo, administrador do Grupo Erofio, destacou a necessidade de inovar para manter a competitividade da indústria portuguesa. Com mais de 35 anos de percurso na área dos moldes, o grupo tem investido em novas tecnologias e competências, uma evolução que, segundo o responsável, exige disponibilidade para explorar caminhos diferentes. “Para continuar a competir, não basta fazer bem aquilo que sabemos fazer. É preciso ter a coragem de inovar, de investir e procurar novos caminhos”, afirmou. O fabrico aditivo foi apresentado como uma das áreas em que a empresa procura transformar a experiência industrial acumulada em novas oportunidades de negócio.

A importância de aproximar o conhecimento tecnológico da produção esteve também no centro da intervenção de Paulo Mauritti, vogal do Conselho Diretivo do IAPMEI. O responsável salientou o potencial do fabrico aditivo para converter modelos digitais em peças e componentes, utilizando o material necessário à sua produção. Mais do que uma tecnologia de fabrico, considerou-a uma ferramenta estratégica para aproximar o desenho do produto da sua concretização industrial e desenvolver soluções com maior valor para as empresas e para a economia.

Já João Ferreira, secretário de Estado da Economia, enquadrou a transformação industrial num conjunto mais vasto de desafios, da utilização dos dados à automação, passando pela qualificação dos trabalhadores e pela internacionalização. A recolha de informação, defendeu, só ganha verdadeiro valor quando é analisada e utilizada para apoiar decisões: “Sem dados, não conseguimos dar o passo seguinte, que é introduzir este nível de inteligência”, afirmou João Ferreira, sustentando a importância de recolher, filtrar e analisar informação para apoiar a tomada de decisões. O governante sublinhou também que “decidir depressa não é decidir à pressa”, associando a agilidade dos processos à necessidade de manter o rigor e a qualidade.

A inovação deve, por isso, traduzir-se em ganhos concretos de eficiência e competitividade, num contexto em que as empresas portuguesas enfrentam concorrência internacional e precisam de encontrar formas de acrescentar valor ao que produzem.

O governante chamou ainda a atenção para a importância da colaboração entre empresas, entidades públicas e sistema científico e tecnológico, bem como para a necessidade de relações de confiança entre a Administração e o tecido empresarial. A simplificação dos processos e a capacidade de resposta às necessidades das empresas foram outros dos aspetos abordados.

João Ferreira, secretário de Estado da Economia. Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop

João Ferreira, secretário de Estado da Economia. Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop.

Repensar os moldes para tirar partido do fabrico aditivo

A apresentação do Grupo Erofio trouxe a discussão para o terreno industrial, ao mostrar como o fabrico aditivo pode ir além da produção de peças e contribuir para repensar moldes, componentes e processos. Cláudia Novo, administradora do grupo, começou por enquadrar esta aposta no percurso da empresa, que nasceu na área dos moldes, alargou a atividade à injeção de plásticos em 2000 e foi acrescentando novas competências ao longo dos anos. Hoje, as três unidades industriais – dedicadas aos moldes, à injeção e ao fabrico aditivo – trabalham de forma complementar, conjugando diferentes processos e conhecimentos.

Para Cláudia Novo, a inovação só tem verdadeiro impacto quando se traduz em valor para o cliente: “A verdadeira medida da inovação é o valor que conseguimos gerar com ela”, referiu. Não basta incorporar equipamentos ou tecnologias mais avançadas: é necessário melhorar o desempenho, controlar os custos e utilizar os recursos de forma mais eficiente. A experiência acumulada no desenvolvimento e fabrico de moldes, explicou, permite ao grupo compreender não só como produzir uma peça, mas também como esta vai funcionar e ser integrada no processo industrial. É essa visão de conjunto que pode fazer a diferença na aplicação do fabrico aditivo.

Pedro Lourenço, CEO do Grupo Erofio, aprofundou esta mesma ideia através de exemplos práticos. A mudança começa na própria conceção: enquanto os métodos convencionais partem de um bloco de material que é trabalhado até obter a geometria pretendida, o fabrico aditivo permite acrescentar material apenas onde é necessário. Esta diferença abre novas possibilidades para o desenho dos componentes, que fica menos condicionado pelas limitações das ferramentas e mais orientado para a função de cada peça. “O objetivo não é simplesmente imprimir a peça, tem de encontrar uma espécie de fabrico mais eficiente para reforçar a produtividade”, afirmou o CEO do Grupo Erofio.

Um dos exemplos apresentados foi o da refrigeração conformal dos moldes, que permite criar canais adaptados à geometria da peça e aproximá-los das zonas onde é necessário retirar calor. Num dos casos partilhados, esta solução permitiu reduzir em 36% o tempo de ciclo. O benefício, salientou Pedro Lourenço, não se resume à rapidez: a geometria dos canais pode também contribuir para melhorar a qualidade da peça e a estabilidade do processo de moldação.

A apresentação foi mais longe, mostrando como o fabrico aditivo pode levar à revisão de componentes e até da arquitetura global de um molde. O conceito InnovaIQ, desenvolvido no âmbito da agenda InnovaEco, combina fabrico aditivo, otimização da geometria, refrigeração conformal e simplificação estrutural. Segundo os resultados apresentados, a solução permitiu reduzir em 75% o peso do molde e em 35% o consumo de energia, bem como diminuir o tempo de ciclo de produção. Pedro Lourenço sublinhou, contudo, que estes ganhos não resultam apenas da impressão 3D, mas da forma como foram repensados em conjunto a estrutura, a refrigeração e o processo de moldação.

A mensagem deixada pelo responsável foi clara: o potencial da tecnologia depende da capacidade de a integrar desde o início do desenvolvimento, considerando o desenho, os suportes, os tratamentos e as operações de acabamento necessárias. A combinação entre diferentes tecnologias e a sua adequação a cada aplicação são, por isso, determinantes.

O desafio de transformar conhecimento em valor industrial

A mesa-redonda moderada por Luísa Santos, das revistas InterMetal e InterPlast, trouxe para o debate uma questão central para a indústria: como transformar as competências já existentes em Portugal numa cadeia de valor competitiva no fabrico aditivo.

Rodrigo Passos, da direção de Capacitação Empresarial do IAPMEI, considerou que o país já dispõe de conhecimentos sólidos em engenharia, automação, maquinação e desenvolvimento de produto, mas precisa de os articular melhor. “O que falta é interligar todas estas competências e ganhar escala”, resumiu. Para o responsável do IAPMEI, um dos principais desafios é fazer a passagem dos protótipos para uma produção industrial consistente, com qualidade assegurada e custos competitivos. A tecnologia, por si só, não garante um negócio viável: é necessário perceber em que aplicações oferece vantagens face aos métodos convencionais e se essas vantagens têm valor para o cliente. A cooperação entre empresas foi outro dos pontos destacados, numa cadeia em que dificilmente uma única organização reúne todas as competências necessárias.

A necessidade de conhecer melhor as possibilidades da tecnologia esteve também em evidência na intervenção de Carina Ramos, CEO da PrimeOut. Para a responsável, a indústria tem de estar disponível para mudar e aprender com experiências que já estão mais consolidadas noutros mercados. A formação e o contacto com novas práticas são importantes, mas também é preciso criar espaço para pensar as aplicações e identificar oportunidades concretas. A sensibilização para o fabrico aditivo está a crescer, salientou, embora a sua integração nos processos produtivos dependa de uma maior abertura à mudança.

Da esquerda para a direita...

Da esquerda para a direita: Luísa Santos, diretora das revistas InterMetal e InterPlast, Rodrigo Passos, diretor de Capacitação Empresarial do IAPMEI, Agostinho Carvalho, CEO e responsável de investigação e desenvolvimento da WeAdd, Carina Ramos, CEO da PrimeOut, e António Silva, responsável de investigação, desenvolvimento e negócio do Grupo Erofio. Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop.

António Silva, responsável de investigação, desenvolvimento e negócio do Grupo Erofio, colocou a tónica na formação e na valorização da engenharia. Portugal tem conhecimento em áreas como a engenharia e os materiais, mas esse saber continua, em parte, disperso. Para o responsável, a competitividade não pode assentar apenas na utilização de equipamentos, cujo custo não difere necessariamente entre países. “Se queremos criar valor, temos de abrir a cadeia de valor, temos de vender a engenharia, acima de tudo”, afirmou, realçando que o contributo das empresas deve começar na fase de desenho e desenvolvimento do produto.

A experiência industrial também exige uma abordagem estruturada. António Silva alertou para o risco de tratar cada peça como uma experiência isolada, sublinhando que a passagem à produção requer resultados repetíveis e processos controlados. “É preciso deixar de transformar cada peça numa experimentação. Temos de conseguir ter método”, afirmou. O fabrico aditivo pode abrir novas possibilidades, mas não elimina as exigências de validação nem é adequado a todas as aplicações.

Esta ideia foi reforçada por Agostinho Carvalho, CEO e responsável de investigação e desenvolvimento da WeAdd, que descreveu o fabrico aditivo como uma tecnologia complementar, e não como uma substituição generalizada dos processos convencionais. A dificuldade está em perceber onde faz sentido aplicá-lo e que vantagens pode oferecer em cada contexto. “É preciso contextualizá-lo”, advogou, salientando que a escolha depende das necessidades do produto, dos volumes, dos custos e do desempenho pretendido. O conhecimento das pessoas será decisivo para adaptar a tecnologia a cada aplicação, em vez de procurar resolver todos os problemas com o mesmo processo.

O debate abordou ainda as oportunidades no setor da defesa, onde a rapidez de resposta e a produção de componentes especializados podem ser relevantes. Carina Ramos, CEO da PrimeOut, identificou, contudo, uma dificuldade anterior à própria tecnologia: a falta de ligação entre as necessidades dos utilizadores e as capacidades da indústria nacional. Segundo explicou, as forças de defesa precisam de peças para a manutenção e reparação de equipamentos, mas nem sempre conhecem as competências existentes nas empresas portuguesas. Do outro lado, muitas empresas não estão suficientemente sensibilizadas para essas necessidades nem sabem como apresentar soluções concretas. Para a responsável, é necessário aproximar as duas partes e passar de uma oferta centrada nos equipamentos e nas tecnologias para propostas orientadas para os produtos e problemas que precisam de resposta.

A discussão evidenciou também que esta aproximação exige uma ação concertada, envolvendo o Estado, as entidades de defesa e as empresas, bem como o cumprimento dos requisitos de certificação e homologação. Agostinho Carvalho considerou que o processo não pode depender apenas da iniciativa individual das empresas, enquanto Rodrigo Passos salientou a importância de preparar a indústria para as oportunidades que podem surgir com a crescente prioridade atribuída à defesa nos fundos europeus. Entre as áreas com potencial, apontou os moldes e as ferramentas, os dispositivos médicos, a aeronáutica e a produção de componentes especializados em pequenas séries.

No balanço da mesa-redonda, ficou a ideia de que o avanço do fabrico aditivo depende menos da aquisição de equipamentos, por si só, do que da capacidade de escolher as aplicações certas, reunir competências e integrar o processo desde a conceção. Para as empresas de moldes e plásticos, o desafio passa por transformar conhecimento técnico em soluções industriais com vantagens demonstráveis, sem perder de vista os requisitos de qualidade, os custos e a viabilidade da produção. 

Os participantes do Open Day 6.0 tiveram a oportunidade de visitar a unidade de fabrico aditivo da Erofio. Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop...

Os participantes do Open Day 6.0 tiveram a oportunidade de visitar a unidade de fabrico aditivo da Erofio. Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop.

A indústria para lá da tecnologia: gestão, pessoas e território

Na parte final do Open Day, Elsa Henriques, professora e investigadora do Instituto Superior Técnico, chamou a atenção para os resultados que nem sempre são imediatamente visíveis na avaliação de um projeto de inovação. Para além dos produtos, serviços e soluções desenvolvidos, destacou a transformação das competências, das instituições científicas e da relação entre empresas e entidades de investigação. A colaboração entre estas organizações permite aproximar o conhecimento das necessidades industriais, mas o trabalho não termina com a demonstração de que uma tecnologia funciona.

O desafio está em transformar esse potencial em soluções que possam ser utilizadas pela indústria e criar valor no mercado. Elsa Henriques alertou que algumas tecnologias e demonstradores ainda precisam de evoluir antes de poderem ser aplicados em condições industriais reais e com competitividade económica. Por isso, defendeu a continuidade do ecossistema de colaboração criado em torno do projeto, envolvendo empresas, universidades, centros de investigação e centros tecnológicos. A industrialização exige tempo, investimento e trabalho conjunto.

André Sousa, presidente da Câmara Municipal da Batalha, destacou, por sua vez, que a inovação não depende apenas dos equipamentos ou do software disponíveis. A organização das empresas e a forma como gerem e partilham o conhecimento são igualmente determinantes para transformar capacidades técnicas em oportunidades de negócio. “Podíamos ter a melhor máquina, o melhor software, mas se não tivermos uma boa gestão organizacional das empresas, umas boas parcerias, nunca vamos conseguir criar valor para o mercado”, afirmou.

O autarca abordou ainda a dificuldade crescente em atrair profissionais com as competências de que a indústria necessita e considerou que as condições oferecidas pelo território – desde a educação à oferta cultural e desportiva – também influenciam a capacidade das empresas para recrutar e fixar trabalhadores. A competitividade industrial, disse, depende também das condições de vida de quem trabalha nas empresas.

Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop

Créditos: Joaquim Morgado, Color Shop.

O Open Day terminou com a visita às instalações da Erofio, permitindo aos participantes conhecer de perto a realidade industrial que esteve no centro do encontro.

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